sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Migrações Pendulares

É um recomeço o hoje logo após o ontem,
do querer à queda do desdenho,
a excitação contida naquele brinquedo aos 9,
o encanto de uma antiga ou nunca esquecida canção.

Há quem carregue pedaços de um ontem passado por vários outros,
cheio de detalhes, tão vivo que chega a ter forma, não só na memória.
Mas também há os que não querem ou não sabem guardar,
nem mesmo um olhar,
e de um instante ao outro se deixam levar por qualquer pedaço de um inteiro.

As coisas são perdidas e então renovadas, mas nunca re-encontradas.
Nada está agora como esteve um segundo atrás, nem mesmo uma foto,
quem dirá o pensar diante do próprio pensar.

Deixar passar, deixar pra lá, deixar ser ou estar.
É simples deixar a falar escapar.

Agora sim ou talvez não, quem sabe logo após.
O tempo continua sua trilha ininterrupta
e nós nos perdemos exatamente ao tentar
correr atrás dele,
sendo quem nem sabemos por onde ele anda no presente.

Que horas são? Que dia é hoje mesmo? Em quem mês estamos? Que ano é este?

A vida é uma troca incessante, uma renovação de tudo o que passa. E tudo passa.
Por fim o que fica é apenas o resultado alcançado até então, mas tudo fica.
Quado dizemos o ultimo adeus nada levamos conosco,
a não ser a própria essência do ser e os cultivos cativados.
E então. Quantos frutos você já viu brotar?

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Equilíbrio

Mate ou morra,
salve ou deixe morrer,
pegue ou deixe que passe,
segure ou deixe que caia.
Perdoe ou guarde o rancor,
aja ou mantenha-se estático,
mude ou seja exatamente o mesmo de sempre,
arrependa-se ou negue-se a aprender.

Exploda ou imploda,
surte ou tenha sempre auto-controle,
brigue ou mantenha-se sempre sereno,
questione ou aceite.
Discorde ou esteja sempre de acordo,
arrisque ou tudo tema,
cale-se ou se faça expressar,
releve ou faça valer a vingança.

E onde está o equilibrio do homem?
De que forma se dá a harmonia da música e
quem está certo ou errado?
Como se faz acontecer e
quando optar pelo sim ou pelo não?
Qual o melhor ou mais adequado e
por que isso e não aquilo?
O que há além do saber?

Saber quem ou o que,
como ou quando,
onde ou qual,
de quem ou porque.

Nada além do saber!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Quem Mente

Oh mente que não mente,
é só você que me diz o que o pensamento realmente pensa
e fala de forma tão clara, tão convicta,
chega a ser estúpida por não medir coisa alguma.
Gostaria que não estivesse tão certa tantas vezes,
e não me mostrasse que eu já sabia o que estava pra acontecer.

Oh mente que não cansa,
é você que pela noite me mantém virando de um lado para o outro,
e se abre como um caleidoscópio cheio de formas e cores,
sempre acorrentando novos elos, juntando restos e pontuando frases.
Entre as celas que você me põe estão os jardins aos quais me tenta,
e eu corro os olhos por todos os lados, chego a voar e cometer suicídio.

Oh mente! Afinal de contas quem é que mente?
Eu por dizer que não ou você por me convencer que sim?
Se tantas vezes me permití o gozo, mas me reprovei depois, foi por ti.
Não haveria tanta memória se eu lhe desse mais ouvidos,
e eu não teria tantas músicas para ouvir dez vezes
e sentir o peito apertar em cada uma delas.

É, mente! Não lhe silencio por tanto gostar de te ouvir, e de sentir a dor do aprender.
Eu que tanto mantenho meus pés no chão, lúcido acreditei ser intocável,
mas a verdade é que o coração é quem nos confunde.
Então quem mente? Qual entre todos nós?
Se há tantos como você mesma diz, estarão todos certos a sós, mas errados juntos?
As lágrimas tornam-se então palavras que não quiseram ser ouvidas,
mas que serão, de dentro para fora.