sábado, 27 de fevereiro de 2010

Olhos de Lêmure

Tão grandes e dourados,
expressivos e enganosamente amedrontados,
tão curiosos e sempre ligados,
estes olhos são universos
nos quais deixo-me perder.

Este teu pêlo, tão macio,
de carinho natural e aberto, livre,
um brilho que encanta e aquece,
em movimentos suaves e ondulados.
Sua pequena juba foi o charme de uma época.

Pequenino este Lêmure, mas ágil demais,
pulou e veio até mim, brincou, me bagunçou,
foi sério e me preocupou, temeu e me trouxe temor,
agitou, fez uma completa desordem,
saltou e foi-se embora.

Grandioso este Lêmure, com seu nariz sempre suado,
demonstrou um coração maior que os olhos,
um afeto maior que suas úmidas e transpirantes mãos,
presença que parecia querer agradar ao meu querer não dito,
intenso como a primeira vez que curioso seguiu meu olhar.

Um verdadeiro palhaço, naturalmente o é,
traz alegria a qualquer momento e ser,
não há quem não abra um sincero sorriso contigo.
Todos se encantam com este teu jeito,
alguns gostariam de tê-lo sempre consigo.

Este teu olhar, confunde, prende, aflige,
mas transparece a força de seu livre espírito
e não esconde o peso de suas emoções.
Estes olhos de mel deixaram saudades,
saudade de mel, dos olhos de Lêmure.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Aos Olhos Meus e Teus

Eu sou a sombra dos que eu critico,
reconheço-me em meus inimigos.
Vivo o ódio dos que me odeiam
e o descaso dos que me desdenham.

Sou tão hipócrita como todo ser humano,
revisto-me desde seda, por feltro à cânhamo.
Sirvo nos erros alheios cometidos
e entrelaço dedos com desejos que omito.

Eu tenho a cara do meu envelhecimento
e a ressaca de minhas dependências,
regurgito fotos, fatos e filmes inteiros ao despertar.

Levo as marcas de minha juventude
e as consequências de passos mal dados,
reviso fragmentos, fantasias e fracassos ao me deitar.

Eu vejo a bondade, mas questiono a inocência,
desvisto olhares desviantes e persistentes no disfarce.
Sou parte maldade, mas reflito o luzir do punhal dos justos.

Carrego a dualidade latente em cada ser
e intensifico a extremos a vivência de temores e vislumbres.

Sou o outro par de passos ao lado ou sob caminhos percorridos,
sou tudo o que sei e vivi e vario de forma perante os olhos que me seguem.
Sou o que quero de mim e o que me esforço pra ser, mas pra você
serei exatamente o que seus olhos escolherem ver.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Simples Palavras

Palavras que o tempo desgastou são hoje forma simples de se entender o que se viveu. A forma que elas vão tomando fazem com que o reservado se apresente de tal maneira que muda o que se tinha rotulado na vida. Vivenciamos tudo que nos cabe aproveitar, porém não se viu ainda uma plena exposição de satisfação, tudo porque a vida se resume a momentos; momentos de sentimentos diversos que fazem parte do dia a dia, não da existência. Indaga-se porque o que se expressa muda de forma com ao decorrer da vida. Formas de expressividade sincera são meios de libertação do padrão, e não estamos preparados para deixar que a liberdade nos ensine a ter um sentimentalismo puro, mesmo podendo ser essa seja a melhor forma. Nada se resume ao passado, mas aprendemos que nem sempre o que sentimos é o que conseguimos expressar.

Palavras do presente são diferenciadas pela forma ágil com que perdem a emoção. Alma expressiva, ser pensador...Vida presente que se resume em não ficar pra trás. Perda de tempo é não saber entender a si mesmo e assim pensar que é feliz por acreditar que sabe amar a vida. Sentimentos estranhos que mudam de forma com o tempo. O tempo...O tempo tudo muda, só não muda o que está a nossa frente. Saber sentir já é passo grande para criança que diz saber o que é emoção. Seres inanimados que têm por sua sobrevivência a convivência. Ambiente social que cria barreiras impedindo o uso correto de palavras que se expressam de forma diversificada, de acordo com o a mente que a expõe.

Grandes emoções nos prometem momentos de prazer, e uma vez que isso é viver, deve ser vivido intensamente. Pressentir momentos de total exposição, reprime nossa própria vontade de revelar o que o coração e a alma nos falam. Criaturas de baixo amor próprio e barreiras construídas somos nós. De que adianta compartilhar um sentimento, se não souber o que é amar...Apenas viva seus momentos e deixe as palavras serem seu consolo, mas formas brutas de expressividade nem sempre são o que dizemos ser a solução.

A vida nos abre portas, nunca uma saída. Ela nos mostra que caminhos diferentes nos levam a explicações suficientes para que possamos dizer: "Eu te amo!".

(texto escrito em 2003 o qual originou meu extinto primeiro blog e o título deste segundo no qual hoje escrevo)