quarta-feira, 17 de março de 2010

Estações

O mal fazer tão bem,
é tão estranho como o que é bom,
mas acaba por consumir e devastar.

É tão comum como quem
se entrega ao vício, deleita-se no suplício,
desencanta-se com o belo
e pensa ser feliz sozinho.

O rosto queima ao tapa
assim como a palma à face;
o calor da dor,
e o arfar do júbilo.

Dar adeus ao que habitava,
abrir portas, janelas,
baús,
tirando trancas, cadeados,
vestimentas,
doi.

Tão dual,
humano e animal,
o instinto racional
contido em cada qual.

O tempo que se leva,
é o tempo que se gasta
pra se habituar,
com a luz e o breu,
o meu e o seu.

Mudam estações,
mudamos,
tanto aqui como lá,
até a paisagem
tanto a de lá como a daqui;
nada é sempre pra sempre,
mas a arte imortaliza a fonte
que sera tudo,
menos a mesma de antes.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Corpo-Sem-Rosto

Existe uma paz que não me inspira a escrever.
O que me comove é o caos,
a felicidade envenena, distrai.

É na desordem que me faço escritor
e descrevo minha aflição com o mesmo prazer que as vivo.
São frases feitas, imperfeitas,
que são gentilmente sussurradas à mim quando bem entendem.

Quanto maior a dor, melhor é de se rabiscar as letras.
São tentativas de transpor à folha aquilo que ja não cabe só na mente.

Mas se me faltam as palavras, é pois, embreagado estou.
O que agora me excita já não é a tormenta, pois no céu nuvens não há,
e eu, ainda assim, aspiro a proxima chuva.

Agora,
existe um rosto ocupando o sentimento
que aqueles corpos-sem-face, em sonho, transmitiam.
Existe o veneno correndo quente nas veias
e a distração impercebida que faz de um instante uma eternidade
e transforma dias em apenas algumas horas de gozo.

Existe o caos, o qual me inspira a escrever.
O que me deixa sem palavras é o amor.