sábado, 24 de abril de 2010

Bar da Esquina

Logo ali naquela esquina,
justo onde eu passava todo dia.
Foi naquela curva de ruas
que à uma mesa você se sentou.

Eu nunca mais vi aquele bar,
não com os mesmos olhos.
Hoje ele tem seu vestido e seus cabelos
e todas as músicas são pra você.

Meus olhos enchergam sábado todo dia,
toda noite é madrugada de domigo.
Pela janela, entre galhos, folhas e flores mortas,
a calçada carrega o seu movimento.

Mas é sempre assim quando a cama acolhe.
Procuro de luz apagada, mas não acho.
OIho do outro lado da rua, mas não vejo
nem o seu adeus e nunca mais seu beijo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Caixa-Vazia Cheia de Nada

Entranhas à vista
e brilho no olhar de quem vê.
Caos desfarçado de Eros.
Sou eu,
não tiro minha culpa...
“mea culpa”

Melhor se faz
o que melhor se sabe fazer.
Dor e prazer.

Esferas de fogo no espelho,
cacos do mesmo ao chão.
Kali se veste de Krishna.
É do Homem,
e não se pode mudar...

Desgraça justa,
equilíbrio espiritual.
Arte milenar de destruição:
especialidade humana.

Talento indesejado,
dominado,
domador e domável.
Obras de arte nas paredes da mente,
nos labirintos,
quadros e faces tão doces,
versáteis camaleões.

Afaste-se, vá,
ande,
ainda há tempo...
Não se aproxime, corra,
agora há pouco tempo.
Vai acontecer...

A sereia está a cantar,
o mar se inquietou.
Homens ao mar
pularão e por lá permanecerão.

Éris e Athenas fazem amor sob nossas cabeças,
enquanto Ares se enche de gozo livremente.

Conta-se até onde não se sabia contar,
tão rapido que a fala se torna disléxica.
São incontáveis as ruínas,
e todas já foram fortalezas.
Deixou-se que o pó descesse
e as pedras pudessem ser recolhidas.
Jogou-se tudo de volta à caixa,
pra guardar e usar outra vez.

Mas o talento foi dado por Caos,
moldado por Ares
e difundido pelo Homem.

São todas as artes marciais,
são todas as filosofias,
todas as religiões,
todas as sensações.

Haverá um novo talento,
perdido, sonhado, desejado, idealisado,
esquecido e não trabalhado,
mas haverá.

A caixa-vazia estará cheia de tudo
pra tornar-se completa pelo nada.
Nada completa a caixa.
Eternamente incompleta.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Entorpecentes Naturais

Questionei minha sabedoria
que então, serena, me disse
"Não deixe que sua convicção
te torne surdo e nem cego
diante de sua verdade"

E em resposta
a ignorância bradou
"Deixe de dar ouvidos
e ceder o seu olhar
a quem lhe amolece"

Por fim encontrei-me
e abraçei-me com o equilibrio

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Um Dia

Vou nadar em várias águas
e comer os diversos frutos dessa fonte.
Vou subir em várias árvores
e provas suas frutas e diversos sabores.
Quero temer pra ficar destemido
e depois temer novamente.
Quero ouvir vozes
até desconhecer a minha própria.
Quero olhar para os globos nas órbitas
e ser John Malkovich.

Preciso de asas imaginárias
por ter os pés cravados no chão.
Preciso de tanto que queria não querer nada,
mas o fato é que eu tudo quero.
Preciso errar sem saber,
mas por fim aprender e poder escolher quando errar.
Vivo o ser humano
mesclado ao animal que habita em mim.

Quero dizer o que eu deixei de dizer
exatamente como eu quis que eu fosse ouvido.
Vou fazer o que eu bem quiser e serei taxado de egoísta,
mas é aqui que eu deixo de querer.
Deixo de tentar ser um par
para ser dois por dois.

Aos poucos,
pequenas porém intensas ações
me guiarão muito além do aqui.
Afinal,
todos viverão o que eu viverei
sendo de carne e exigindo-se um constante esforço sobre-humano.