terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Sincronismo Cíclico

Creio no tempo e suas ásperas mãos
capazes de desatar tornados e tormentas,
amansar fulgores e turvamentos,
mas apenas se soubermos o que há para se transformar.
Elos instransponíveis, junções que não se desfazem.
O que está junto, não mais pode separar-se...
não enquanto junto estiver...mas esquecemo-nos,
quão corriqueiramente nos descuidamos,
de trazer aos olhos do coração:
aquilo que um dia fez parte, por maior que fosse sua imensidão,
por menor que fosse sua insignificância, foi parte do todo.
Mas o que do corpo desprende-se, à alma apega-se
e então, jamais deixa de estar.

O corpo enfermo pode logo curar-se, pelo amargo da medicina,
pela quentura de corações que se abrem a deixar o bem escapar livremente,
pelo tempo corrido e já encerrado de sua jornada...partir também é uma cura!
A alma adoecida, permanece no frio de bater os dentes envolta pela febre intermitente;
não há matéria capaz de sanar, não há organismos capazes de tratar,
não há quem saiba da dor melhor do que quem a sente.
É um lindo e enorme baú o corpo cuja alma achacou-se e faleceu,
restando mais nada dentro, encerrado, lacrado, selado,
oco.
É importante ver a beleza da morte e nobilitar este encerramento;
o nascimento é apenas a outra ponta do mesmo ciclo.

Não há caminhos certos, e tampouco haverá errados.
Nada está programado,
porém,
não hei de negar as tendências intencionadas,
uma vez que a vida por si própria nos faz provar o gosto vivo da terra e o amargo do cimento,
bem como a limpidez da água e suculência do alimento,
a cada deslize ou sucesso da alma diante de si mesma.
É o mais alto nível de inteligência, é a perfeição contida em tudo o que é vivo,
e tudo é vida.

A nós, denomina-se vida a história escrita pelas mãos de quem faz sua estória realizar;
somos escritores de nós mesmos, fictícios inclusive à grafita sob o papel,
e artistas plásticos de nossa própria imagem diante do espelho privado,
assim como do público.
Criamos o mundo em que vivemos,
o nosso, o meu, o seu e o deles.
Quando desconhecemos nossa própria criação,
nosso traço, nossa letra, nossas cores e os por detrás,
nossa assinatura, nossos trejeitos e a nossa energia,
neste momento deixamos de ser criadores, diretores, produtores de nós mesmos,
e passamos a ser criados, dirigidos, produzidos,
por toda a engenhosa e auto-suficiente estrutura elaborada por nossa própria capacidade de criar.
Não há paz, mas precisamos e encontramos conforto,
não é real, mas chamamos de realidade...
por fim, chamamos a nós mesmos, humanos, de Deus, humanizado,
por não sabermos explicar, nem entender, absolutamente nada sobre quem e o que somos.
Aparentemente, somos frutos de nós mesmos,
parte integrante e indissociável de uma inteligência suprema,
capazes de tudo, inclusive de nos levarmos ao nada.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Coruja Dourada

Eu encontro motivos e razões
para conseguir me convencer do contrário,
pois é o contrário o que eu anseio.

Quando a noite se afoga em boemia,
tudo se justifica e minha sanidade se confirma.

Almejar o inatingível
é me expor à dor e ao prazer do desafio ao mesmo tempo,
e então o mesmo motivo da alegria é também o da tristeza.

Por fim, lutar pelo que?!

Prefiro não ter que ver o meu amor morrer,
prefiro a dor da laceração da pele, do fogo aos olhos,
da quebra dos ossos e a extinção da luz...

Há uma Coruja Dourada em meu peito,
e ela sabe, pois seus grandes olhos tudo vêem.
Há um nó, há um completo emaranhado;
está tudo embaralhado, e a guerra não cessa.
De fato, está apenas começando.

Fui convidado à render-me antes mesmo de lutar,
mas sem me entregar; o convite foi o oposto.
Deveria render-me, desistir e, apenas, deixar ser.
A Coruja é sábia e coerente,
mas também instigadora e ardilosa.

Nunca fui muito obediente,
seguia regras que me convinham
e criava as que eu queria seguir.
Mas agora já nem sei,
pois pra morrer é preciso, primeiro, existir...
E na minha incompletude,
sinto-me inexistindo, esvaindo-me.

Já não posso afirmar se vejo o que vejo
ou se quero ver o que estou vendo.
Não consigo ponderar se estou me convencendo,
deixando-me convencer, ou sendo convencido.
E agora, posso por tudo a perder,
mas perder o que, se de fato,
nada tive?!...

Que a Coruja Dourada me ajude

a tornar tudo tão claro quanto seus olhos,
tão firme quanto seu voo,
tão certo do não, quanto do sim.
Agora, o meu amanhã já não é apenas meu...