quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Terminais

E o que sou
Se não reflexo,
Luz turva, ricocheteada,
Além de escuridão?

Não por bem,
Forjei-me
Em mais que sei
E leio onde posso ver.

Estou farto
De minhas próprias errâncias,
Da auto-perseguição púbere
E de irreais alívios.

Superficializado,
Perco-me no baque,
Numa impulsão do pulso
Do transparente calafrio.

Há dores onde há querer
Há prazer no desejo da dor
Morte onde não couber viver
Vazio no que se pode preencher

Redobro promessas
Filtrando ruas, roupas,
Fitando as suas,
Falando nuances nuas.

Cabide torto
Pr'uma alma'massada.
Estrada fria
Pro caminho de onde venho.

E o terreno é fértil,
Pele sobre pele.
Há de chover brotar,
Hei de fazer crescer.

Aquilo lá
É fim de novo,
Em tudo que será,
Mas aqui não.

Eu beijo a terra
E sinto meu cheiro ecoar em mim,
Cada vez que me vou,
Cada vez que voltei.

Preparo a casa
Mas não faço mesa.
Deixo a sala estar
E ser o que sou.

Caminho demais
Sem precisão,
Sem precisar.

Castigo sem paz
Se a escolha é ruim,
Se a água é com gás.

Rateio meu fim,
Até o ar acabar,
Até me ver de mim.

Chega.
Venha
E vá.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tanto

Se ao menos eu não sonhasse mais contigo
e não me lembrasse da cor de seus cabelos em minhas mãos,
nem conseguisse sentir ainda o prazeroso desconforto da memória dos seus olhos nos meus,
nem ouvisse ainda em minha mente a sua voz,
atravessando quilômetros com a mesma limpidez com que saiu de sua boca.

Se ao menos eu pudesse forjar sua inexistência
e não me incomodasse mais por cada vez que ouço aleatoriamente seu nome,
nem me entristecesse pela inevitabilidade das circunstâncias impostas,
nem tentasse de toda e qualquer maneira
apagar os traços, as marcas e o vazio deixados em mim.

Se ao menos não houvesse tanta intensidade
e eu não me sentisse incapaz de abrir ainda mais seus olhos,
nem sentisse nossas velhas conversas e seu abraço re-ecoando pelo meu corpo inteiro,
nem soubesse que as escolhas foram feitas,
conscientes, desconsiderando toda e qualquer experiência exclusivamente nossa.

E pra mim, não há sol em dias de chuva,
e eu começo a sentir a dor da laceração da pele, do fogo aos olhos,
da quebra dos ossos e a extinção da luz...
Mas não vejo o meu amor morrer,
e me sinto Prometeu sofrendo sua eterna penitência,
devorado diariamente por uma imensa e imponente ave...

Há tempos não desejava tanto
ser possível esquecer também o que houve de bom,
ser possível viver como se nunca tivesse vivido,
ser possível existir como se nunca tivesses existido.

Há tanto, tanto...
que se eu pudesse dizer não me calaria pela sede,
que se eu pudesse agir não dormiria em meses,
que se eu pudesse te fazer sentir, estaríamos verdadeiramente juntos.

Há tanto...
tanto...

sábado, 13 de abril de 2013

Em uma tarde de sexta-feira de céu aberto

Mesmo quando não estamos fugindo de nada, nós nos afastamos de alguém.
Quando o pensamento vai longe demais, de onde já havia estado, pra onde não volta mais.
É quando as pernas não dão conta que a mente vai, e é quando a mente vai que não somos mais os mesmos.
Se fossemos levados a qualquer lugar, não seríamos nós a nos movimentar, mas uma sombra do que poderíamos ter feito com nosso próprio esforço...uma sombra de como nosso corpo seria se nós mesmos os tivéssemos moldado.
A nossa aparência é também como nos vemos e os nossos traços são desenhados por nossas próprias aspirações.
A falta de movimento ameniza as cicatrizes, mas nos molda numa massa amarronzada como a junção das cores que nos são oferecidas para moldar.
E quando nos vamos, também nos voltamos pra dentro de nós mesmos e podemos enxergar as partes e as travessias pelas quais deixamos nossas marcas esculpidas e nossa forma editada para a exteriorização.
A ideia que temos de nós mesmos não vai de encontro a qualquer outra ideia de qualquer outro momento de qualquer outra circunstância.
É a exclusividade de sermos quem somos, desconhecidos para nós mesmos, que nos move para longe, para perto, para dentro e para fora.
Aprofunde-se e verás além de suas próprias marcas.
Canse suas pernas e sinta sua mente pulsar verdades e mentiras sobre a vida...escreva-as e verás que o início de suas palavras não conseguem ser o final de seus pensamentos.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Uma chuva linda lá fora
E é difícil sair daqui de dentro.
Um auto-aprisionamento
Em pensamentos e emoções ensurdecedores.

Há tanto a ser dito,
E há um certo cansaço.
Tanta palavra significando, sobrecarregando,
Tanto sentimento intensificado, versificado...

Não hei de se esperar o que vier.
Expectativas já não me lançam a viver,
Auto-ilusões já não me servem de ar,
Velhas histórias já não me encantam mais.

A solidão, e há solidão,
Amiga, velha amiga,
Confundiu-se, e eu a mim mesmo também.
Acreditamos num amor que nunca foi nosso.

Já me enamorei de majestosas aves,
Inesquecíveis manhãs de sol vibrante,
Maravilhosas tempestades com raios e ventania,
E a sensação de ter o calor da mão da morte à minha.

Pois bem me lembro, velha amiga,
Era sempre o seu abraço que na cama me acalmava a mente,
Somente nós, ninguém além.
Sabíamos bem, mas acreditei no que não ouvi de ti.

Hoje me basta fazer o bem e o que me faz bem.
Os caminhos percorridos já são história,
e o depois é logo após agora.
A vida está acontecendo.

Encontros e desencontros amanhecem juntos
Pra tomar café e lembrar dos sonhos (tão reais).
Lembro-me que viver de sonhos
É não viver os próprios sonhos.

Agora chega!
A hora é esta, a mente é certa.
É com passos firmes e serenos
Que eu deixo aqui e vou até onde o meu peito suportar o peso do meu aprendizado.

E mais uma vez, à velha mesa eu me sento,
Sem mais espaço, nem outros assentos.
Café, pé no chão, brisa fria e um bom olfato...
Silêncio.