quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tanto

Se ao menos eu não sonhasse mais contigo
e não me lembrasse da cor de seus cabelos em minhas mãos,
nem conseguisse sentir ainda o prazeroso desconforto da memória dos seus olhos nos meus,
nem ouvisse ainda em minha mente a sua voz,
atravessando quilômetros com a mesma limpidez com que saiu de sua boca.

Se ao menos eu pudesse forjar sua inexistência
e não me incomodasse mais por cada vez que ouço aleatoriamente seu nome,
nem me entristecesse pela inevitabilidade das circunstâncias impostas,
nem tentasse de toda e qualquer maneira
apagar os traços, as marcas e o vazio deixados em mim.

Se ao menos não houvesse tanta intensidade
e eu não me sentisse incapaz de abrir ainda mais seus olhos,
nem sentisse nossas velhas conversas e seu abraço re-ecoando pelo meu corpo inteiro,
nem soubesse que as escolhas foram feitas,
conscientes, desconsiderando toda e qualquer experiência exclusivamente nossa.

E pra mim, não há sol em dias de chuva,
e eu começo a sentir a dor da laceração da pele, do fogo aos olhos,
da quebra dos ossos e a extinção da luz...
Mas não vejo o meu amor morrer,
e me sinto Prometeu sofrendo sua eterna penitência,
devorado diariamente por uma imensa e imponente ave...

Há tempos não desejava tanto
ser possível esquecer também o que houve de bom,
ser possível viver como se nunca tivesse vivido,
ser possível existir como se nunca tivesses existido.

Há tanto, tanto...
que se eu pudesse dizer não me calaria pela sede,
que se eu pudesse agir não dormiria em meses,
que se eu pudesse te fazer sentir, estaríamos verdadeiramente juntos.

Há tanto...
tanto...