sábado, 5 de dezembro de 2015

Cartas Descartadas

Quisera eu não querer
Dizer daquilo que é só meu.
De coisas tolas faço letra
E deixo o saber a quem não se interessa.

Por onde anda a sensatez
A me impedir de ser tão vil?
Afloro em minha expressão
Tudo o que já me escapou pelas mãos. 

Mas é que às vezes não dá
Pra olhar no outro e calar,
Tamanha a voz que brada "nós", 
Canta assim melhor do que a sós.

Pudera eu ter poder
Pra cerrar a flor que se entregou.
A qualquer hora faço uma canção 
Sobre o que pode ser e o que já foi. 

Detenho o horizonte além
De onde a alma sabe chegar.
Não me atenho a convenções
E sangro a verdade só bem depois.

E se por fim houver
O que haverá de mim,
Hei de clamar um só
Nome de dois em um,
E então desato um nó 
Onde há de ter nenhum.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Quem?

Quem é você,

Que esconde o olhar atrás de imensas e opacas vidraças sombrias,
Que se camufla em cores, formas e linhas
à mão desenhadas,
Que transforma corpo, alma e essência
em fotografias editadas,
Que se molda em poses anaturais pra realizar ânsias alheias.

Quem é você,

Que se passa por ser quem sequer saberia reconhecer,
Que distorce o que vive no peito para não o transparecer,
Que edifica muralhas onde cercas sequer deveriam haver,
Que apresenta um filme daquilo que não é,
de fato,
viver.

Quem somos nós?

Para sentenciarmos que é assim ou assado,
que é aqui ou acolá,
Para afirmar o que foi,
o que deveria ter sido e o que ainda será,
Para ocultar a si mesmo quando ao outro se portar,
Para infamar aquilo que ao outro faz gozar.

Quem somos nós?

Para sermos mais que os outros e termos mais que tantos,
Para fecharmos fronteiras,
para delimitarmos os marcos,
Para sermos tão insensíveis diante do que fere aos nossos,
Para negarmos a uns a chance de ser como todos.

Mas,
quem,
afinal,
sou eu?

Senão você,
Senão nós,
Senão tudo em todos,
Senão nada a sós.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Berço Meu

Não, não é...
Não, não sou...
Não, não vou
Mentir por você!

Veja só...
Ouça-me!
Entenda bem,
Somos cada um...

Nasci aqui
Meio sem querer.
Eu não sou daqui,
E eu não sou vocês.

Não me vejo assim.
Não lhe quero bem,
Não lhe quero mal.
Não te quero aqui.

Eu preciso ir,
Não quero isso aqui,
Pra mim, já não dá mais
Ser todos nós.

Você fez o que deu,
Fui até onde pude.
Agora é melhor assim,
Não estás aqui...nem eu.

Não quero ouvir de ti,
Não gosto da tua voz,
Apesar do berço meu,
Prefiro estar só a vós.

O sangue que corre em mim
Diz do que eu nunca vi,
Carrega alguém que não eu
Sou também o que não sou.

Mas isso é você quem diz,
Só posso saber de mim.
Dos traços que desenhei,
Da escolhas que eu mesmo fiz.

Siga você pra lá,
Que eu continuo de cá.
Melhor seria não te encontrar,
Antes pudesse fazer voltar.

Adeus, você.
Obrigado por nada,
Por ter feito de tudo,
Por não ter sido amada.

Obrigado a você,
Por não ter sabido amar.
Assim é melhor pra mim.
Assim, tanto fez ou faz...

Se por fim algo mudar,
Eu não vou lhe procurar.
Faço questão de resguardar
O que eu quiser lhe falar.

Você não merece ouvir
Do que eu poderei dizer.
Antes eu tive um querer
Assassinado por você.

Adeus, então.
Já me despedi demais.
Agora eu não volto atrás.
Deixe pra vida que virá...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Alívio Vivo

Eu
Não quero correr mais.
Só quero chegar em casa
Com todos os meus pedaços.

Bem,
Eu já sei da destruição
Que cada falta me causa
Nessa mera constelação.

Vozes que não ouvia
Sempre me diziam
O que não fazer.
Seres de ideias próprias
Traçam minha história
Sem minha permissão.


Não sei mais o que será
Do rubor que em mim vigora
Numa força descomunal.

Quis
Não ter tido o que tive aqui
Nem ter visto tudo o que vi
Nem mesmo aquele olhar em mim.

Vezes que eu não dormia
Sempre a despia
Em meus sonhos vãos.
Cedo a sãos pensamentos
E me distancio
Do que ela é de bom.

Eu
Não quero saber mais.
Só quero que a manhã chegue
E se encerre essa aflição.

Bem,
Já desandou meu coração
Deixo que a vida me desvende
O que houver de revelação.

Vários
Sentimentos pulcros
Já se esvaíram
De minha solidão.
Restam
Minhas vestes gastas,
Minha sincera mudez
E minha redenção.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Aconteceu

Eu não queria fazer parte da sua vida,
Mas mesmo assim,
Eu estava ali.

E se eu pudesse nunca estar, não estaria,
Me prestaria
A lhe poupar

De ter que olhar meus olhos sem entender nada
Da sua mensagem,
Do meu querer.

E se eu soubesse algo de mim naquele tempo,
Comigo mesmo,
Ou sem você...

Mas a verdade é que eu fazia parte
De tudo um pouco,
Tarde demais.

São vários templos de um tempo já vivido,
Quando eu vivia
Sobrevivia.

E eu não queria saber do que quer que fosse,
Eu estava lá,
Qualquer lugar.

Você dizia da energia da amizade,
De uma vontade
De perdurar.

E a coisa toda desandou no abandono
De um sentimento
Forte demais.

E a vida veio e levou logo tudo embora,
Sobrou memória
E nada mais.