sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Sombra Fresca

Um ano, dois, vários, 
Há tempos que pessoas entram e saem da minha vida. 
Eu não sei fazê-las ficar, 
Mas sou sempre muito receptivo ao novo. 
Gosto de mudar, 
Mas, definitivamente, não sei fazer nada direito. 
Não me encontrei profissionalmente, 
Emocionalmente, 
Enquanto ser humano. 
Faço o que dá pra fazer,
Quando dá pra fazer, 
Do jeito que der pra fazer. 

Enquanto isso, 
Pessoas entram e saem da minha vida.  
Eu não sei fazê-las ficar. 

Há um ano atrás, 
O inimaginável acontecia, 
O improvável estava diante dos meus olhos, 
O impossível era palpável. 
E quem eu era eu no meio da minha própria vida eu não sei. 
O que eu fazia de caso pensado, 
O que acontecia sem eu prever, 
O que esteve fora do meu controle, 
Se entregou e foi embora, 
Pra nunca mais voltar. 

Mas os sentimentos bons sempre prevalecem 
O que me destrói, hoje, 
Me faz mais forte amanhã. 

E ainda não me encontrei nessa vida 
Sou ainda aquele menino sem lugar,
Sem destino, 
Sem ser. 
E, agora, 
Um pai. 
O que será de minha filha com um pai como eu, 
O será desse pequeno ser humano preenchido dos sentimentos mais puros que alguém pode ter na vida,
O que será dessa frágil criatura que ainda tropeça caminhando em um terreno plano, 
Que quer o pai pra sempre ao seu lado. 
Que escolha temos nessa vida
Senão viver um dia após o outro, 
Abandonar o que não der pra carregar 
E carregar o que não der pra largar, 
Seguir em frente com as escolhas acertadas ou erradas. 
Não importa, 
Só é preciso seguir em frente, 
Independente da vontade de não seguir, 
Da vontade de conhecer o lado de lá logo,  
De se ver livre de uma mera sobrevivência, 
De se ver refém de seu coração que insiste em bater. 

Quantas pessoas eu não quis que tivessem entrado em minha vida, 
Quantas vidas eu vivi com as pessoas que eu sonhei ter pra sempre em minha vida. 
E, no final das escolhas, 
Meu maior erro ainda é pensar em ter, 
Eternamente, 
Tudo o que eu nunca quis deixar ir, 
Como uma criança que quer que seu pai esteja pra sempre ao seu lado,
Que não tem escolha,
Mas ainda assim quer que seu pai não se vá. 
Mas ele vai, 
E as pessoas se vão, 
E outras virão, 
E a dor passa, 
E os sentimentos bons sempre prevalecem. 
O que restar é consequência. 

O que sou hoje é uma parte de todas as pessoas que já fizeram parte da vida que eu jamais escolhi viver, 
Mas que não abandono 
E que ainda não sei o que fazer dela, 
Como uma criança que ao ser perguntada sobre o quer ser quando crescer responde que quer ser grande, 
Como se ela pudesse escolher ter 1,56 ou 1,80 de altura, 
Como se ela pudesse escolher continuar criança, 
Como se ela tivesse controle sobre as adversidades fatais da vida, 
As quais nos levam à única convicção absoluta que conseguiremos ter:
A morte. 
E há anos que a morte é uma sombra fresca num lindo dia de sol, 
Tão presente, natural e inevitável 
Que se torna desejável. 
E quem há de dizer que estar aqui é melhor que está lá. 
Quantas verdades existem além da sua, 
Da minha,
E eu mal sei dizer qual é a minha. 
Literalmente. 
Qual é a minha, 
Como se eu te perguntasse qual é a sua,
Em provocação, em ódio, em aversão ao outro. 

Chega num ponto que não há mais nada a ser dito 
E o melhor é deixar que a gélida correnteza vital desse maldito lugar nos leve, 
Pra qualquer lugar, 
Desde que,
Pelo menos, 
Alguma coisa de bom possamos deixar, 
Mesmo que ensinamentos sobre o que não fazer, 
Como os que minha mãe me deixou 
E eu nem sempre sei aprender. 
Não quero fazer diferença na vida de ninguém, 
Quero me sentir bem fazendo o bem que eu pude fazer, 
Oferecer o amor que eu puder sentir, 
E me entregar de peito aberto ao que vier, 
E correr os riscos que eu tiver que correr, 
Pra estar em paz comigo mesmo
E ser capaz de compartilhar essa paz, 
Pra sentir amor em mim 
E ser capaz de dividir esse sentimento com quem quer que seja, 
Pra aprender e ensinar
E estar cada vez mais pleno de que isso tudo aqui é passageiro,  
Que nenhuma dor ou alegria é plena, 
E passar por isso tudo tantas vezes até que o coração saiba a hora de parar.  
E ele parará. 
Que assim seja.