sábado, 31 de outubro de 2009

Miragem Celeste

Perdeu-se então, mas ainda não sabia,
cada parte do aroma, instigado pelo sabor
cada cor na memória, cada gota de suor
passado enfermo e presente decomposto.
Onde mais haveriam dentes, tantos dentes
e o reluzir de tamanha brancura,
se não há de vir em vida outra alma
que espere até que seja.

Perto de onde seu passos não tinham rastros
bem onde uma luz apareceu e fez clarear
lá onde o chão era incerto às costas
teve diante do peito a corredeira de um riacho virgem.
Na água gelada ele manteve seus pés
até que pudesse a temperatura se amansar
sentiu pedras por toda sola desnuda
mas caminhou com as palpebras cerradas.

Teve ao redor chuvas e trovoadas chegando a clamar pelo azul,
teve o sol rasgando a pele cortada, inflamando-lhe as piores feridas,
tirou todo ar de seu peito pra chamar a quem não lhe ouvia,
juntou o fim de suas forças com o início de sua jornada.
Desse corpo vermelho por tinta viva pintado
surgiram frases escritas pelo vento
palavras que fizeram pesadelos serem orvalho
marcas que trouxeram a verdadeira nudez da face.

Lavou-se no riacho agora de águas mornas e deitou-se
seu corpo levado lentamente parecia nao mais ser teu
seus olhos ali abriram-se e cego ja não era mais
porém desconheceu todos as curvas em que sua pele fora deixada.
Percebeu ali que sequer deu-se a permissão para contemplar
e que a paz da correnteza lenta, rapidamente esgueiriu-se
e que luz alguma era tão bela como aquela que lhe encorajou
a perder-se de onde veio, a gelar suas canelas,
a cerrar seu olhos vívidos, a andar de pés à mostra,
a deixar-se pintar, ouvir e ser
e voltar, lá onde tudo vestia-se como ele queria
e assim perceber, que ali não era o que deviria ser.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

À Flor

À flor eu dedico meu olhar
um olhar que a seque e que se canse
por tanto admirá-la

À ela eu entrego meu toque
que lhe retire as pétalas e lhe abra o botão
pela sede em te-la em minhas mãos

Uma flor merece cuidados
pra que não lhe falte o que precisar
e que não murche antes da hora

Uma flor deve ser inspiração
para qualquer olhar que a fite
mas não para qualquer um que a queira

À ela eu me abro, como ela o faz por mim
mas se ela não o fizer
eu aguardo até que o faça

À uma flor não se dá outra flor
As que não estão no jardim
logo nos deixam

Flores despertam fascínio
mas elas sabem dos sentimentos que as cercam
e à eles elas reagem

Flores são arte por si próprias
e em tela se fazem imortais
e o perfume uma eterna lembrança

À uma flor oferecerei o meu amor
jamais usando-a para prová-lo
A flor que merecer este amor
Estará em meu corpo, alma e coração

Estão Todos Aqui

Vejo no carrocel
vários deles juntos
Brincam entre si
apesar de uns olhares tortos

Uns não gostam tanto dos outros
os outros nem ligam pra esses
Estão todos juntos
e jamais separar-se-ão

Quando tudo gira estonteantemente
a brincadeira torna-se o oposto
Sangue, dor, pesadelos, vômitos
nenhum pensa noutra coisa se não em si

Uns dão risadas dos outros
os outros trocam suas máscaras
Enquanto um deixa de ser o que era
o outro se fortalece em risos

Eles não sabem quem são
mas são porque assim os firmamos
Não os vemos, mas sabemos quando nos falam
eles sempre fazem o que querem

Gozam do domínio
e apesar de cada um ser um
são todos impiedosos
e nos deixam acreditar no que queremos

Pensamos saber o que fazem
mas é assim que eles agem
Pra eles, melhor sangrar e aprender
do que chorar e se recolher

Esse carrocel que nunca para
esta atráz de seus olhos
abaixo de seus cabelos
por baixo de seus pêlos

Eles nos jogam a rodopiar
e nos apegamos ao primeiro que nos der
um pouquinho que seja de qualquer lucidez
Nessa hora, tanto faz se é o caos ou a paz

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Sonhador

Eu quero uma casa
na beira do rio
e ver correr as águas
mais velozes que as nuvens

Abrir meus olhos cedo
e respirar o sol
Será pedir demais
ter um pouquinho de paz?

Se eu não arriscar
jamais saberei
o que pode dar
ou o que serei
Agora eu me vou
guardo pra mim
segredos que decidi
não dividir

Eu deixo a porta aberta
permito o vento entrar
não gasta preocupar
pois ninguém mais virá

Nesta mesa que eu me sento
não há mais lugares
preencho o espaço e o tempo
com tudo o que agora me cabe

Sonhei um dia dividir
dei tempo ao tempo e para mim também
mas tudo foi bem como a vida quiz
reclamo de nada pois estou feliz

Guardei a noite em que eu decidi
pensar em nada e somente partir
nada deixei pra tráz mas só levei
o melhor e o pior de tudo que aprendi

Se eu não arriscasse
jamais saberia
até onde iria
a minha alegria
Agora eu estou
mais perto de mim
é sábia essa Força
que me faz seguir