sábado, 5 de novembro de 2016

Coragem

Por gentileza, ouve bem 
De antemão já deixo o pedido feito 
Para que perdoes as literalidades por mim proferidas 
É que disfarçar intenções e dissimular emoções, 
São habilidades que jamais possuí, 
Dons que eu nunca desenvolvi 
Opostos tais à tua natural covardia 
À tua aversão ao dito em frente ao espelho 
Ao teu desconforto pelo que confessa o teu reflexo
À tua insistência em não te veres em tuas própria janelas 
E à tua recusa de te atraíres por tua alma exposta 
Eu sei, não te entregarias de forma tão crua assim

Pois o que peço é por reconhecer o casulo violado 
De forma inversa ao que deveria ser
Se não partes de ti, não és tu a eclodir 
Se permaneces reclusa, então, 
Resta-me apenas reiterar o perdão que mendigo
Pois sinto-me agora com a voz imunda, 
Enraizada em sinceras reverberações de outrora, 
Embriagada num desejo meu que me habita em ti

Agora o rosto inundado se afoga 
Em soluços de emoções incontíveis
Como pedaços de alma dilacerantes 
A revelar o que o silêncio nunca havia deixado escapar 
E se há sofrimento que não se negue
Está naquilo que virou arte dentro de nós

Estas verdades nos couberam sem previsão 
E este sentimento que perdura adentro no espaço 
Atemporais persistem a contragosto teu
Foi na última lua a anunciar a morte dos ventos gélidos 
Anterior ao nascimento do primeiro sol das flores desabrochantes
Ao fim de três voltas inteiras ao redor de nossa estrela 
Que a tua presença se fez revelar 
E trouxe luz a obscuras incertezas
E o forte abraço-do-medo no peito 
Que te esconde atrás de um sorriso turvo
Tão farsante quanto o presente brilho em teu olhar 

Pois que haja boa ventura neste fardo que carregas
Que tenhas força para manter de pé o teu teatro-do-que-não-é
Pois só tu hás de saber dos espinhos e das rosas sob teus pés 
Pois enquanto houver temor, que haja a certeza, 
Como houve no último abraço trocado naquele pontifício cruzamento,  
E que o pranto-que-ninguém-mais-vê seja sempre a convicção
Do que, de fato, tudo é, e tu não suportas ser

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Incorrigível

O que remanesce agora               
Senão dissimulação
Distorção de tudo e todos 
Em prol de um sonho bom
De um par sonhado em singular
Descabido como só

Marginais mudos ao taciturno

Moucos justo agora
Quando a voz é veraz
E os fatos incomensuráveis
Há entrega cabal e desnuda
Avessa ao dito entre outrem

Memórias aprazíveis desencantam, todavia

Malditas reminiscências deleitosas
Findadas todas em inerente inconcebibilidade
Ressurgidas inabaláveis a cada sol
Palpáveis como olho no olho
Francas como ocultação do desvendado

E a persistência do indevido

Pulsátil como não quereria ser
É premissa dos mais belos retratos
Pálidos, demaquilados,
Coração e alma revelados
Declarantes da ferida escancarada

Resta à lua notar o pestanejar

Saber do anelo incabível
Pois a noite não acata trapaça
E açoita o peito como o vendaval aos campos
E recebe lágrima como desaba temporal
E acende o ser como nada mais o faz

Ora, se não é lídima tal ventura

Provinda de onde sabe-se lá se factível elucidar
A visceralidade da veracidade veda qualquer vaidade
Está desnudada e plena a dita da improbabilidade
É plausível todo o aferrado caos
E da tormenta há de advir, plenamente, amor